Todo anjo é terrível

“A mulher tem um ar apagado, está cansada talvez, nesta casa onde nesta tarde de um domingo de fim de verão abre as janelas em busca de ar fresco. (…) Usa camiseta curta, apertada, e calças de cintura baixa, com o ventre batido e o umbigo à mostra, como uma garota, embora tenha a pele um pouco gasta, o rosto de quem fuma bastante, e se note que tomou muito sol.” Assim descreveu María Teresa Andruetto, a mãe de uma menina cuja família vive uma desestruturação causada pela presença do irmão, portador de síndrome de down. Trata-se de um trecho do livro A menina, o coração e a casa. Trata-se da escuridão resgatada do grosso manto de luz com que cobriram a infância e a juventude.

Não me espanto com o desinteresse das crianças e jovens pela literatura. As estantes das livrarias estão repletas de histórias vazias, sem sentido, que não encontram hospitalidade na mente inquieta de seus leitores. Existe um acordo tácito entre pais, professores e sociedade, onde está escrito que devemos extirpar qualquer fonte de frustração, desequilíbrio e insatisfação da vida e principalmente da formação das crianças. Pretensamente laico e fundador do “polianismo”, o mercado editorial infanto-juvenil promulga outra religião: a felicidade. Perigosíssima.

Onde vivem os monstros, Maurice Sendak.

A maior parte da literatura produzida para esse público aproxima-se mais dos enlatados teens norte-americanos do que da literatura propriamente dita. Não há conflito, não há incertezas, não há erro. Parece que esqueceram que a infância é na realidade, uma coleção de pequenas tragédias cotidianas. E por que ignorar isso? Por que afastar o leitor com promessas de potes de ouro embaixo de um arco-íris fajuto? Eles sabem que isso é mentira. Eles viram no google.

Felizmente, alguns editores enxergam a necessidade de lançar a literatura infanto-juvenil a outros patamares – aprendizes de Monteiro Lobato -, que inaugurou o gênero e estabeleceu parâmetros altíssimos que acabaram por ser ignorados por seus sucessores, provavelmente por comodidade e certamente por incompetência. Escrever para crianças e jovens não é nada fácil. Exige uma inteligência intuitiva que obriga o escritor a esmiuçar lembranças. Uma breve incursão a este mundo esquecido é capaz de reanimar dores que se escondem intactas nos escaninhos empoeirados da memória.

Todo anjo é terrível. Foi o poeta Rainer Maria Rilke quem o disse. E o que é a criança senão um anjo em sua forma mais pura e extraordinária? Por isso as narrativas infantis devem ser como filhotes de monstros. Monstros à moda de Maurice Sendak.

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crônica publicada no portal Araçatuba News, em 02/08/12

http://www.aracatubanews.com/noticia.php?id_noticia=2576

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Boemia criminalizada

a “ciganada” moderna, retratada no filme Amici Miei, de Mario Monicelli

Eu olhava pro Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Aldir Blanc, Tim Maia, Angela Ro Ro, Nelson Cavaquinho – tantos outros – e pensava que era aquilo que eu queria ser quando crescesse. Pareciam tão felizes, tão comprometidos com a vida, tão irremediavelmente ligados à poesia… E era exatamente isso o que eu queria ser.

Do outro lado estavam umas mulheres tristes, uns homens apressados, umas crianças amarelas… Todos aqueles que concordavam com a cartilha de Educação Moral e Cívica aplicada nas escolas. Eles viviam quentinhos em suas casas próprias, com suas vidas estáveis, animais de estimação, automóveis e cartões de crédito.

Meus heróis viviam no sereno, compondo canções para seus corações partidos, fazendo troça do sofrimento, fazendo juras de amor eterno, brigando com a polícia e esquecendo-se de tudo na manhã seguinte. Eu me sentia como uma criança que escutava atrás da porta, sem permissão para participar da festa, mas eu escutava tudo. As vozes embargadas, os violões, as serestas, as brigas e as reconciliações. Aprendi a etiqueta da noite. Aprendi que dela nunca se sai ileso. A noite é como o mar.

O mal é a birita?

Diz-se que o termo boemia surgiu em meados do século XVII para designar os ciganos originários da Boémia, um país da Europa Central. Segundo relatos, tratava-se de um povo nômade, descompromissado, desregrado, alheio aos bens materiais e aos grandes projetos.

Apesar de já constituir uma postura política, o termo passou a ser ainda mais pejorativo (e combatido) no século XIX, quando a revolução industrial almejava extirpar completamente a figura do “vagabundo”, transformando os pobres em operários, os remediados em burgueses e os ricos em deuses. Não havia mais espaço para o boêmio, ele era um problema, um parasita, alguém que não contribuía para o desenvolvimento econômico da sociedade.

Naturalmente, grande parte desses enjeitados encontrou abrigo nas artes, sobretudo na música e literatura. Consta que muitos jovens dessa época se inspiraram na obra Scènes de la vie de bohème, do poeta e romancista Henri Murger[i], para assumir sua condição livre de artista.

A reintegração (leia-se desintegração) do boêmio

Sempre foi assim, o boêmio é considerado contraproducente, porque além de não se engajar na paranoia workaholic/consumista, ainda esfrega na cara dos trouxas que a vida lá fora pode ser bem divertida. O boêmio é encarado como um ser socialmente doente, que não faz parte do fluxograma. É um marginal.

Muitos países de primeiro mundo e recentemente o Kassabistão[ii] apostam em políticas públicas de higienização e homogeneização social. Tal como a população de rua e os viciados em crack, o boêmio deve ser educado por meio de restrições que ferem sua liberdade individual, para que e as pessoas de bem não se sintam ameaçadas pela simples possibilidade de que outras pessoas, com outras ideias e ideais, cruzem seu caminho.

Está para ser votado um projeto de lei do deputado estadual Campos Machado (PTB/SP), que proíbe o consumo de bebidas alcoólicas em locais públicos. Isso não fere apenas a liberdade do cidadão que quer tomar incólume a sua cerveja, atinge também em cheio os setores que promovem eventos culturais como quermesses, carnavais de rua e outras celebrações de caráter dionisíaco.

Segundo Guilherme Barros (Isto é Dinheiro), “o setor de bebidas frias já sinalizou que, caso o projeto seja aprovado, deverá reduzir os investimentos a esses eventos em cerca de R$ 200 milhões”.

Talvez o projeto não passe por conta da enorme pressão da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) que ameaçou entrar na justiça caso a lei entre em vigor. Contudo, briga de mercado não significa amadurecimento social.

O que me preocupa mesmo é posição dos meus colegas, vizinhos e gente que anda ao meu lado na calçada. Faz uns meses, eu estava numa tarde com a minha filha na pista de skate que fica na esquina da Av. Dr. Arnaldo e a Rua Cardoso de Almeida, em São Paulo, rolava um show com várias bandas de rock, lá estavam muitos adultos com seus filhos. Estranhei a ausência de ambulantes vendendo cerveja, então atravessei a rua a comprei uma longneck. Quando me sentei na arquibancada, um guarda municipal me comunicou a infração “é proibido consumir bebidas alcoólicas aqui”. Olhei para o lado e vi várias pessoas escondendo furtivamente suas longnecks. “Você pode tomar do outro lado do portão” ele disse. “Mas a minha filha está aqui dentro e eu preciso ficar de olho nela” argumentei. Ele deu de ombros e disse que os próprios frequentadores da praça fizeram um abaixo assinado solicitando a proibição.

Não concordo mais com o famoso verso de William Blake[iii] “só o caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria”, não defendo o consumo abusivo de álcool e a tomada das ruas por hordas de bêbados desordeiros. Defendo o poder de escolha acima de tudo e a possibilidade de haver outros pontos de vista que fogem à regra mercantilista de que tempo é dinheiro e dinheiro é tudo.

Em São Paulo, mesmo com a lei em fase de aprovação, a restrição acontece o tempo todo. Na Virada Cultural e na tradicional festa da Achiropita já não podemos consumir nada que contenha álcool. Caso a lei seja aprovada, fica proibida a caipirinha à beira-mar e o vinho na calçada.

Foi assim com a lei do “psiu”. Foi assim com a lei antifumo. Higienização e homogeneização. É o triunfo da sociedade de consumo sobre a vida. É a vitória do espírito reacionário, que imerso em sua ignorância não suporta ver os pés de quem sobe à superfície em busca de oxigênio.

É doce viver no mar[iv]. Pelo menos pra mim.


[i] Louis-Henri Murger (Paris, 1822 – 1861) a obra citada deu origem à famosa ópera La Bohéme, de Puccini e também ao filme La Vie de la Bohéme, de Aki Kaurismäki.

[ii] Referência à gestão reacionária do prefeito Gilberto Kassab em São Paulo.

[iii] William Blake (Londres, 1757 – 1827) o verso citado faz parte do poema Provérbios do Inferno.

[iv] Referência à canção de Dorival Caymmi, “É doce morrer no mar”.

*

Esta crônica foi publicada originalmente no site Araçatuba News.

Slovenian Girl (Slovenka, Damjan Kozole, 2009)

Slovenian Girl é um filme singelo circundado por uma tênue linha de melancolia. Nada parece fazer muito sentido para a protagonista Alessandra, tão belamente interpretada por Nina Ivanišin. Alessandra é uma jovem natural de Krsko – pequena cidade da Eslovênia – que faz faculdade de letras em Ljubljana (capital) e se prostitui para manter um apartamento e se sustentar.
A história se alinhava sem pretensões entre uma amiga da faculdade, um ex-amante perseguidor e o pai. Paralelamente está um político alemão que morre em sua presença num quarto de hotel e três homens que passam a chantageá-la.
Eu – que não sou crítica e nem pretendo ser – colocaria esse filme na categoria “lost in translation” de abordagem, pois demonstra o tempo todo o desencaixe de sonhos, perspectivas e realidades de uma jovem que está à procura de algo melhor para sua vida, mesmo sem saber o quê exatamente. Observa-se também a ausência de comunicação, uma vez que os personagens se relacionam quase que por inércia e a verdade se esconde por trás de convenções e formalidades.
Outra associação que fiz foi com o filme “Pai e Filha”, do cineasta japonês Yasujiro Ozu. Não pela história em si, mas pela relação afetuosa e pouco transparente entre Alessandra e o pai Edo (Peter Musevski).
O roteiro reto, sem reviravoltas, imita a cronologia da vida. Particularmente gosto disso. É verdade que existe um e outro clímax que parecerá implodir a história, mas logo as coisas se encaixam na mediocridade de sempre e a vida segue.
Slovenian Girl (Slovenka) foi dirigido por Damjan Kozole em 2009 e chega ao Brasil dia 27 de abril pela Tucumán Distribuidora de Filmes.
Prêmios:
Melhor Atriz (Nina Ivanišin) – Mostra de Valencia 2009
Melhor Atriz (Nina Ivanišin) – Les Arcs EFF 2009
Melhor Atriz (Nina Ivanišin), Prêmio do Público – Cinnessonne IFF 2010
Melhor Filme Europeu de 2010 – European Film Academy.

Antes só

René Magritte, Personnage méditant sur la folie, 1928.

“Morar sozinho, para quem já não é mais criança e adquiriu um rosário de manias, é valioso. Tem um momento, porém, que o banzo pega, afinal de contas o planeta melancolia nasceu para todos.”
(Xico Sá)

Eis que nesse domingo, de manhã abafada, me deparo com uma crônica do Xico Sá sobre as delícias e as mazelas de morar sozinho. Faço uma breve retrospectiva da minha vida até aqui: saí de casa aos 20 anos, acompanhada, gravidíssima de alguns meses, e aportei em Londrina de mãos dadas com um casal de amigos queridos. Dividimos o mesmo quarto, sem janelas, de uma pensão nada estudantil no centro da cidade.
Logo conseguimos nosso canto, numa casa deveras estranha, de frente para o lago. Foi bonito. Até aceitarmos um quarto elemento que fingia ser ex-praticante de esportes noturnos, tais quais sinuca, bebedeiras e afins. Mentira. O sujeito etiquetava seus víveres: arroz, catchup, ovos. Tudo levava o seu nome. E nunca participava de nossas reuniões acaloradas. Para ele “o grupo de jovens da igreja até que era quente”, foi isso o que nos disse antes de pedirmos para que se retirasse.
Depois disso descolamos uma casinha de bonecas, também de frente para o lago, esse ainda mais bonito, com grama bem verde no verão e uma cinematográfica neblina no inverno. A casa tinha jardim, quintal, três quartos e cozinha grande. Tentamos dividir com outras pessoas, não deu certo. Foi nesse ponto da história em que deixei de ser só definitivamente. Iara nasceu. Por fim, o casal decidiu tentar uma vida a dois e nos separamos (por pouco tempo e em seguida, para sempre).
É verdade que minha mãe cuidou de minha filha nos primeiros anos de vida, eu tinha uma rotina agitada. Trabalhos esquisitos, saltando de república em república e terminando o curso de Ciências Sociais.
Eu tive planos que não deram certo. E ainda os tenho.
Voltei para a casa de minha mãe, onde não mais havia um quarto só meu. Soou o alarme. Fiz as malas e rumei para São Paulo, onde diversas aventuras me esperavam. Entre elas um casamento mal ajambrado que acabou dando certo (enquanto durou) e minha primeira e gloriosa experiência com a total e irrestrita liberdade.
Após a separação e uma repentina perda de emprego, Iara precisou ir novamente morar no interior. Foi então que pela primeira vez pude abrir a porta do meu apartamento com absoluta certeza de que tudo estaria como eu deixei. Sem surpresas. A louça suja em cima da pia e a certeza de que ninguém iria lava-la na minha ausência me dava certa segurança. Eu estava enfim no controle.
É um controle ilusório, eu sei. Daquele casal de amigos, sobrou apena uma parte, minha alma-gêmea, a outra nos foi amputada de forma estúpida. O mundo deu voltas. Estou novamente cercada de amigos. Dividindo coisas e conflitos. Tem um lado bom. O banzo pega, mas pega leve. O afeto transborda. Mas sinto falta daquela solidão de ficar sozinha no escuro da sala bebericando alguma bebida forte ao som de Nina Simone. Sinto falta de estar só, mas principalmente de escolher estar acompanhada.

Não tire da minha mão esse copo*

Imagem

fachada do bar Valentino em Londrina

“se quiser fazer algo por mim
quando me encontrar num botequim
pague… pague uma dose pra mim”

(Bêbados Habilidosos)

Tortinho, Las Vegas, Bruta Flor, Bola 7, Bate Bola. Kotovelu’s, Jota,  Pé na Cova, Jaime, Café em pé, Amarelinho, Paraíso Flutuante, Gato Preto, Valentino. Valadares, Léo, Praça Roosevelt, Mercearia, Filial, Salve Jorge, PPP, Cacilda, Gruta, Amistosas.
Foram muitos os meus lares. Nutro o  afago nos cotovelos deixado pelos ásperos balcões. Carinho. Todo bar me deixa um calo na memória. Chamar o dono pelo nome, rimar as cicatrizes com as rachaduras dos copos e dos azulejos. Rir, chorar, exagerar, se estapafurdiar. Entoar Ângela Ro Ro, Cazuza. Tom Waits, Leonard Cohen, PJ Harvey. Cartola. Todos cabem numa mesa de bar. Além de comer coisinhas, caldinhos, escondidinhos, delicadezas calóricas, torresmos, amendoins, salames, queijinhos… Pouca coisa se compara ao contentamento de engordar uma jukebox no Bexiga, furar a noite com um taco de bilhar em punho e levar pra casa um copo americano vazio dentro de uma alma contente.
Nunca fui uma criança de boteco. Mamãe não era de beber, meu pai sim, mas esse estava longe, num bar qualquer da capital. Eu, no interior, me apaixonei sozinha pelos bares, investiguei a textura das paredes e a brisa fugitiva de uma geladeira semi-aberta.
Penso que os poemas largados nos guardanapos são preciosidades voláteis, borboleteiam-se. Injúrias e afagos deixados na porta de um sanitário perpetuam-se. E os bêbados são saudáveis marinheiros de um barco eternamente à deriva. O que posso dizer de mim, é que eu bebo a vida numa mesa de bar, eu bebo amigos e poesias, canções extremamente tristes e algum uísque.
Por isso, não tire da minha mão esse copo, não tire dos meus braços, e da minha nuca, e do meu corpo todo, esse anseio por mais um copo de sereno, por mais um beijo de boa noite, por esse pequeno naco de esperança que insiste em despontar a cada nova manhã celebrada com amigos numa mesa de bar.

E por fim, deixo aqui um Poema bonitinho sobre cervejas:

A loira brejeira
Espreita-me, esquiva
Pelo vão da geladeira.

*trecho de canção gravada por Ângela Ro Ro

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crônica publicada originalmente no Boteco do Tulípio em 2009.

Jantando com os piratas: Anthony Bourdain

Costumo dizer que Anthony Bourdain é meu herói por um motivo bastante simples, tenho pavor ao comportamento acético e politicamente correto que assola o planeta. Estamos cercados por diversas hordas de xiitas evangélicos, vegetarianos, abstêmios, neonazistas, anoréxicas e antitabagistas… Sim, coloco todos sob o mesmo rótulo, são todos extremistas, a verdade é que essas pessoas estão fortemente determinadas a acabar com toda a nossa diversão, percebe? Mas o que um chef/escritor tem a ver com isso? Veja bem, o espírito punk ressurge na aparente anarquia de uma cozinha: quem serão os aptos a orquestrar uma balbúrdia de molhos fumegantes, brasas, estilhaços e palavras de baixo calão? Certamente não será um francês tenro de cútis muito branca e extremante delicado, quem já teve oportunidade de trabalhar dentro de uma cozinha sabe que os bons modos nunca são o prato do dia.
Não estou escrevendo a resenha de um livro em especial, porque todos os livros do Bourdain merecem ser lidos, mas nem todos merecem ler um livro do Bourdain. Os pudicos, as virgens, os beatos, e principalmente os de parco paladar podem se retirar, porque a vida pode ser realmente deliciosa para quem decide vive-la.
Guardadas as devidas proporções, eu diria que se Bukowski por algum terrível acaso houvesse optado por cozinhar ao invés de escrever poemas… Bem, ele se pareceria muito com Bourdain.
“Cá estou, sentado de pernas cruzadas com Charlie, no meio do mato, enfiado no delta do Mekong, bebendo uísque vietnamita falsificado numa garrafa plástica de refrigerante. (…) Vejo um cara durão, nos seus quarenta anos, pescoço e braços musculosos. Ele me olha na cara, nada tímido o tal sujeito… Sorrindo, mas não o sorriso amigável e caloroso que o vovô vinha me dirigindo. Um sorriso que diz: matei alguns da sua espécie, sabe? Agora vamos ver quanto você consegue beber. Estou bem aqui, fique frio, digo, tentando não enrolar a língua. Venha me pegar. E dou a minha pior encarada, caprichando no estilo presidiário barra-pesada, enquanto enxugo outro copo do que, cada vez mais, parece formaldeído”. No seu programa de tv “Anthony Bourdain – No reservation” (Discovery Travel & Living) o despretensioso cozinheiro perambula pelo globo procurando a “refeição perfeita”, evoca para isso uma memória gustativa impressionante, começando pela lembrança de uma sopa fria e de sua primeira ostra, fato que o lançou irreversivelmente ao mundo da gastronomia. Foi assim que um típico americano viciado em hambúrguer com catchup se tranformou num “Indiana Jones” da culinária.
“Miolo? Queijos fedorentos e moles cheirando igualzinho a chulé de morto? Carne de cavalo? Timo? Pode trazer!! Tudo o que tivesse grande capacidade para chocar tornou-se minha escolha predileta.”
Em sua viagem à São Paulo em 2007, Bourdain devorou o famigerado sanduíche de mortadela do Mercado Municipal, visitou a escola de samba Rosas de Ouro , provou testículos de boi e de galo no Valadares e bebeu muitas, muitas caipirinhas. Clichê? Claro. O contrário seria como ir à Irlanda e não visitar a Guinness Factory. Falando nisso, beber é um dos esportes preferidos desse herói da pós modernidade, no entanto, sua aversão à cidade com a segunda maior frota de helicópteros do mundo não agradou muito: “Alguém já disse que (São Paulo) é como se Los Angeles vomitasse em Nova York”. Se a estética paulistana não conquistou Anthony o mesmo não se pode dizer da nossa cozinha, é bom mirar os olhos de alguém que realmente gosta do que está comendo.
O primeiro livro que li foi “Bobby Gold”, um romance, onde o underground se funde à culinária com uma narrativa ácida e descompromissada, misturando leões-de-chácara, casas noturnas, prostitutas e risoto de trufas.
Depois parti para “Cozinha Confidencial”, autobiográfico, uma retrospectiva pessoal que resgata a infância e os primeiros contatos com os sabores e aromas da França, desembocando em experiências inusitadas e escatológicas vividas nas cozinhas de diversos restaurantes, na companhia de sujeitos que mais parecem piratas do que cozinheiros, citando suas palavras ‘vivendo uma rotina de sexo, drogas, mau comportamento e grande cozinha’:
“Eu estava chegando ao fundo do poço, pessoal e profissionalmente. Fui despedido do mexicano, exatamente por que motivo eu não saberia dizer; havia muitos, e todos eles bons – alcoolismo, consumo de drogas, malandragem, preguiça – , mas não sei qual dessas características desagradáveis teria sido a causa dessa vez. Mas não me importei nem um pouco; os ratos estavam me dando nos nervos, sobretudo quando eu estava doidão de pó, vale dizer, quase o tempo todo.”
Agora estou terminando “Em busca do prato perfeito”, que aborda um pouco mais o aspecto antropológico da comida, porém sem perder o sarcasmo que tanto admiro, é basicamente um relato das viagens feitas para o programa de tv “Anthony Bourdain – No reservation”.
Ainda me falta “Maus Bocados”.
Antes de terminar acho importante dizer que a beleza é um ponto chave das narrativas de Bourdain, a beleza de tocar o fundo das coisas, sem superficialidades, sem pseudo moralismos, a comida é vista e saboreada imersa em seu significado estético, histórico e cultural, com muito humor e cerveja, sem mesuras, ou melhor, sem reservas.

Biografia:
Anthony Bourdain (Nova York – 1956): Chef executivo da brasserie Les Halles, em Manhattan. Livros lançados no Brasil: Cozinha Confidencial: Uma Aventura nas Entranhas da Culinária (Cia das Letras, 2001); Em Busca do Prato Perfeito: um Cozinheiro em Viagem (Cia das Letras, 2003); Bobby Gold: Leão-de-Chácara (Cia das Letras, 2005) e Maus Bocados (Cia das Letras, 2008).

* crônica publicada originalmente na extinta revista eletrônica A Rotativa, em 2009.

**upgrade: em 2011 a Cia das Letras lançou o mais recente livro de Bourdain, Ao Ponto.

O inimigo

Ontem topei com um livro na Biblioteca de Ciências Mário Schenberg. De cara impressionei-me com o projeto gráfico e as ilustrações. Fiquei entre as estantes separando o montinho de onde sairiam os livros para a próxima oficina Miolo Mole*. Conforme a leitura fluía fui sentindo aquela sensação rara de ter encontrado um pote gigantesco de ouro no meio de uma multidão de cegos. Assim que terminei permaneci daquele jeito imóvel e absorto por alguns minutos, daquele jeito que a gente fica quando percebe que algo irreversível acabou de acontecer.

Um bom livro faz isso. Seu efeito é imediato. Algumas pecinhas movimentam-se dentro da gente e de uma forma muito sutil deixamos de ser quem somos para nos tornarmos pessoas um tiquinho melhores. A sabedoria mora nos livros porque pessoas moram nele. Pessoas de carne e osso que passam um bom tempo inventando uma receita mágica de bolo.

O livro “O inimigo” de Davide Cali e Serge Bloch é uma pedra preciosa. Ele nos fala sobre a guerra através dos nossos próprios soldados – os sentimentos. Cada soldado vive isolado dentro do seu buraco, eles se odeiam e ninguém sabe o motivo, eles sequer se conhecem, receberam um manual e obedecem cegamente às regras. Com muita simplicidade e delicadeza Davide Cali nos leva de uma trincheira à outra, agachados, com medo. Ao lado de um dos combatentes compartilhamos a mesma visão parcial do inimigo.“Está um pouco frio. Mas o disfarce número três me mantém aquecido. Rastejo lentamente até o buraco do inimigo. Sem dúvida ele não conta com essa surpresa. Pensa que estou dormindo, como todas as noites. Vou rastejar até o buraco dele e matá-lo.”

Doce e perturbador. Esse livro nos faz perceber além da grande guerra doente em que está mergulhado o mundo, ele nos coloca de frente com o espelho, cara a cara com nossos inimigos íntimos.

“À noite, do meu buraco, vejo muitas estrelas. As estrelas fazem pensar. Gostaria de estar lá no alto e olhar para baixo. Às vezes me pergunto no que o inimigo pensa: ele também olha as estrelas? Se as olhasse, talvez entendesse que esta guerra não serve para nada e que é preciso termina-la.”

Hoje vou ler esse livro para 12 crianças da periferia de São Paulo. Um deles havia me pedido um livro sobre luta. Não espero nenhuma reação surpreendente, mas acredito que algumas dessas palavras irão ecoar e girar por um bom tempo dentro de suas cabecinhas e talvez suavizem um pouco a brutalidade que a vida lhes impinge.

O inimigo: Davide Cali
Título original: L’ennemi
Ilustrações: Serge Bloch
Tradução: Paulo Neves
São Paulo: Cosac Naify, 2008.
64 pp., 43 ils

(*) Projeto Miolo Mole é um projeto de formação de leitores desenvolvido por Luana Vignon e Adriana Brunstein. Acesse o blog do projeto para mais informações: http://projetomiolomole.blogspot.com/

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Rio de Janeiro

Bairro de Sta. Teresa. Rio de Janeiro. Apartamento do escritor Marcelo Mirisola. A brisa invade a pequena sala e balança as franjinhas da rede onde dormem Pedro e seu pai Anselmo Luis, após um lauto almoço no restaurante “Nova Capela”; Marcelo reclama dos cachorros, mas da janela ele me mostra o Cristo com tudo aquilo em volta e eu me lembro do que ele disse na noite anterior: “Sabe qual era o lugar preferido do Mário Quintana no Rio? Os túneis, para descansar os olhos da paisagem.”
O Rio me emociona.
Domingo à tarde fomos tomar café num velho palacete, ficamos esperando o sol se pôr porque, segundo nosso anfitrião, os trilhos do bonde brilhavam de um jeito mágico àquela hora. Era verdade.
Tudo o que dizem sobre o Rio é verdade.
Durante o almoço falávamos sobre espaços e como eles nos pertencem, falávamos de velhas mercearias e antigos botecos, de como deixávamos vestígios de solidão em cada canto desses lugares, forçando-os a fazerem parte da nossa história, mas o avanço nas grandes cidades faz com que tudo isso seja tragado com uma voracidade estúpida, e nos deixa com a memória amputada. Marcelo reclama: “Tem tanta gente cuidando do meio ambiente, de floresta… e quem é que está cuidando dos nossos bares?” Quem vai impedir que amputem pedaços inteiros da nossa história e da nossa solidão?
O cabrito assado com batatas e brócolis é a especialidade do “Nova Capela”, que fica na rua Mem de Sá.
Chegamos bem cedo ao Rio, seis e meia de um sábado chuvoso. Deixamos nossa bagagem no hotel e percorremos vagarosamente as ruas do centro, a madrugada chegava ao fim, os travestis tentavam despachar os mauricinhos bêbados da zona sul: “meu celular é esse, mas eu sei que você não vai ligar, vocês nunca ligam”. As sete em ponto numa pizzaria o garçom servia a penúltima cerveja a um grupo animado de amigos. As ruas, aos poucos se esvaziavam…
É estranho pensar que São Paulo já foi assim.

(crônica publicada em 28/07/2010 no blog Fake Souvenir)